Tenho três anjos na minha cabeceira. Eles ficam em frente a uma estátua de Tara Buddha, ao lado de um boneco do Gandhi feito de argila e um Santo Expedito de porcelana. Costumo colocar um japamala no Gandhi, um terço preto na maçaneta da porta do armário e um terço azul na janela. Ainda tenho um quadro de Budha na parede da cama, uma medalha do Espírito Santo na mochila, alguns livros de Chico Xavier na prateleira e, às segundas, por volta das 20h, faço o evangelho kardecista com toda família. Uma vez ouvi de um protestante que quem segue todas as religiões é porque está perdido. É, não.

Não sou católico, mas respeito as histórias de alguns santos e acho lindo todo simbolismo. Assim como tenho um Rafiki - aquele macaco do Rei Leão - de pelúcia porque me lembra algo bom, eu tenho um Santo Expedito que lembra a fé que minha mãe teve em uma fase complicada da minha família.

Não sou hinduísta, mas, para mim, a história e a postura de Gandhi me cativam mais que Jesus. Talvez por que o tal filho de Deus veio em uma época muito distante ou por que seus fiéis fanáticos fizeram um marketing ruim com a imagem dele.

Também não sou budista e, mesmo tendo feito curso do kardecismo, não me considero um espírita. Contudo, reconheço nas duas filosofias espiritualistas alguns pontos que me fazem melhor. E isso que me importa: querer ser melhor.

Não tenho religião, tenho fé. Fé em um Deus, em uma energia ou em uma força suprema que só exige uma coisa de mim: o bem.

‘Meu’ Deus não é egoísta. Ele não me proíbe de cortar o cabelo, dançar, se divertir e aproveitar a vida. Contanto que quando eu coloque a minha cabeça no travesseiro, eu consiga dormir sabendo que segui o caminho do bem. Meu Deus não é narcisista. Pelo contrário, não suporta que citem o nome dele em vão e aos berros. Ele não é mão de vaca. Não me pede para dar a senha do meu cartão para Igrejas, mas ficaria feliz se eu ajudasse uma entidade carente séria. Meu Deus não terceirizou o trabalho dele de conselheiro, consigo falar com ele sempre que quero, sem precisar marcar um horário, esperar um culto ou uma missa. Mas ele fica feliz de ver pessoas reunidas rezando (rezando pelo bem, não por ele). E tanto faz se é domingo ou segunda, todos os dias são sagrados. Dias de se fazer o bem.

Mas esse é o meu ponto de vista. É o que eu acredito. E também acredito que cada um tem o direito de ter fé no que quiser. Cada um reconhece um Deus dentro de si, dentro dos seus problemas, defeitos e conflitos. Se ouvir um senhor gritando sobre Jesus te faz bem, vá em frente. Mesmo. Sem ironias. Tem gente que dança ao redor de uma fogueira, que guarda a virgindade, que faz greve de fome, voto de silêncio, abraça árvores, anda pelado pela natureza, raspa o cabelo, vive de luz, coloca um frango na encruzilhada, faz yoga com nintendo wii… Não me interessa como os outros decidem se conectar com a fé, com eles mesmos ou com deuses antigos da Grécia. Contudo, o seu limite acaba quando invade o limite do outro (se preferir, troque limite por qualquer uma das palavras a seguir: respeito, dignidade, espaço, direito…).

Eu tenho o direito de acreditar o que é digno para mim, dentro do meu espaço, da minha vida. Você tem o dever de respeitar. Apenas isso. Esse é o limite da fé que as pessoas não entendem. Ou fingem que não entendem para seguir com um modelo de mercado religioso que vende uma crença, mas esquece de vender o bem. O tal ‘bem’ que sempre vence o mal.

Não é só o estado que precisa ser ‘laico’. A fé também. Eu acredito no que quiser. Mas eu, cidadão e ser humano, não devo interferir nas ações dos outros por conta da minha crença. E assim sempre deveria ter sido. Cada um no seu quadrado. Cada um com sua cruz.

No final, sempre voltamos ao mesmo ponto: se cada um cuidasse da sua vida, a vida de cada um seria mais bonitinha. E mais feliz também. 

Sou arrogante demais para amar - amar de verdade, não esses ensaios de carência que fazem as pessoas se acharem eternas apaixonadas, por favor -. Não quero coisas simples. Quero um acúmulo de detalhes complexos. O problema é todo meu, admito. Não é falta de sorte, maldição da bruxa malvada ou macumba da roupa íntima amarrada no pé da cama. É tudo de minha responsabilidade. Desaprendi - ou nunca aprendi - a amar. Chamem de auto-suficiência, de egocentrismo, egoísmo, burrice, imaturidade, cachorrice ou filha da putagem. Eu resumo tudo em arrogância. Claro que não me admiro por isso, mas prefiro manter assim do que viver mentindo para mim mesmo sobre falsos sentimentos. Vejo tantos falsos amores por aí - não que eu os julgue, até admiro - que prefiro minha consciência sincera sobre mim. Adoraria me alienar e me entregar ao mundo dizendo que o mousse de limão da padaria é a melhor coisa do mundo, mas tenho a percepção de que seria muito mais feliz com um cheesecake e isso me abre os olhos. Idiota, não? A grama do vizinho é mais verde, mas nem isso eu desejo. Quero uma grama azul, amarela ou roxa. Não precisa ser melhor, só diferente. Só ao meu gosto. E meu gosto é arrogante demais para saber do que ele realmente gosta. Então, vou seguindo assim: ora feliz na solidão, ora querendo dar chance ao falso amor, ora esperando estupidamente que o verdadeiro encanto irá acontecer e me salvar. Tolinho.

Livre-me das sandálias de couro. Mesmo que confortáveis, elas deixam os dedos à mostra. Aceito envelhecer, mas me recuso sair por aí exibindo meus pés na velhice como quem se desacostumou a ter vaidade e só busca o conforto. Faço questão de bons sapatos e do mesmo bom gosto que acredito ter hoje. Não quero descanso, não quero uma rede calma na praia para observar o avançar dos dias. Aceito, sim, um curto período de férias para repor as energias, mas não uma aposentadoria eterna.  Poupe-me de ser um observador. Quero continuar atuando na minha história. Não deixe que ninguém assuma as minhas responsabilidades por mim. A paciência, o discernimento e a sabedoria são bem-vindos. O comodismo, a preguiça e a falta de sonhos devem permanecer distantes. Prefiro até que eles nunca me encontrem. Entenda: envelhecer não me assusta. O que me assusta é desistir. Por mais que os dias passem e eu perceba o prazo de validade se aproximando, quero continuar vivendo como se os amanhãs fossem eternos. A morte virá. Talvez. Mas enquanto ela não aparecer é no agora que continuarei focando. Que a vida me ensine suas lições preciosas, que me ponha à prova, que me faça rir e chorar quando ela sentir vontade. Porém, que ela nunca destrua o amor que tenho por ela. E, assim, bem vestido da cabeça aos pés, quero ir até o final com ela.(Renan Botelho) 

I’ve kissed honey lips
Felt the healing in her fingertips
It burned like fire
This burning desire
I’ve spoken with the tongue of angels
I’ve held the hand of the devil
It was warm in the night
I was cold as a stone
But I still haven’t found
What I’m looking for

Não se iludam. A carcaça é de pelúcia, mas a ossada é de ferro e a carne fria nunca esquenta. Um organismo feito para não se acostumar com a presença de outro. Movido por um coração carente, que mesmo necessitado de afeto, insiste em repelir qualquer surto que o prenda em um amor. Um ser programado pela astrologia para ser livre. E perde-se em tanta liberdade. Quase uma máquina, não fosse pela capacidade de chorar pela solidão que o acompanha sempre. Sabe que suas asas podem voar no ritmo que quiser, sem peso extra na bagagem. Sabe que seus rumos dispensam o uso de mapas. Sabe que seu guia é si próprio. Só não sabe amar. É feliz assim, mas queria ser de outro jeito. Queria pode retribuir o que já sentiram por ele. Queria não fazer ninguém sofrer. Compaixão ele sente, mas basta tirar a primeira sílaba desta palavra para que ele fique perdido em seu próprio dicionário. Um coitado. Mas livre de qualquer nó, exceto os da sua cabeça.

You loved me ‘cause I’m fragile
When I thought that I was strong,
But you touch me for a little while
And all my fragile strength is gone.

Tenho tentado compreender sua inocência tão pura, e tão burra. Entendo que você foi criado em outro planeta e sua geração provavelmente é muito atrasada para entender a complexidade das nossas relações atuais. Mas até quando você vai defender essa postura tão ingênua das coisas?

Sinceramente, uma noite de sexo iria te fazer bem. Eu sei que você é uma criança, mas já viveu o suficiente para aprender  o motivo de ter nascido com um pinto, certo? Caso contrário, pare de conversar com uma Rosa e vai trocar uma ideia com o Bêbado de sua história. Ele sabe das coisas.

Pequeno, não quero ser agressivo com você. Mas alguém precisa te avisar que esse papo de ser eternamente responsável por aquilo que cativas é uma mentira deslavada e cruel. Crianças leem a sua história e crescem enganadas pela Raposa, que claramente te enganou por um prazer sádico desconhecido. Ela está certa quando diz que o essencial é invisível aos olhos, mas só. O resto é tudo balela de um animal que não entende nada dos sentimentos humanos.

Uma vez o ouvi perguntar se as estrelas são todas iluminadas para que cada um possa encontrar a sua no céu. Tolinho. Não me diga que você também nunca ouviu falar de horóscopo? É pra isso que elas estão ali, não para todo mundo se encontrar… que coisa mais cafona, hein Pequeno?

Também não quero afetar sua auto-estima, mas o Peter Pan representa muito melhor esse papelzinho de criança que não cresce mais. Ele tem personalidade, sabe? Não fica aí pelos cantos chorando, conversando com flores e animaizinhos. Que coisa mais de viadinho, né? Não que o Peter seja hétero… Tá aí. Vocês deviam namorar!

Vai fazer uma tatuagem, tomar um porre, falar palavrão e tomar catuaba com os amigos. Mas vive um pouco mais e se liberta de você mesmo. Deixa de achar que seu destino é retornar ao seu planeta. O universo é grande e você pode começar sua história em qualquer lugar. Só precisa de coragem. E a coragem não é fofa como você insiste em ser, Pequeno. A fofura é uma armadilha da covardia tentando te seduzir.

Ah… só mais um conselho: mande aquela Raposa à merda.

Com amor,

Renan Botelho

É preciso ter tristeza. Tristeza não é ruim. Quase todo mundo só quer escutar musiquinhas alegres, ir dançar em lugares barulhentos, ficar falando o tempo inteiro. Porque eles têm medo da tristeza. Mas não é a tristeza que mata.
Fernanda Young

I told you never to get used to me
I stay awake when you fall asleep
I’m a whole lot of trouble
We’re in a whole lot of trouble
I told you should never follow me
But here we are, and you’re in too deep
I’m a whole lot of trouble
We’re in a whole lot of trouble

Mas Joemir não sabe mesmo o que é o amor. Pensa, matuta, cria caraminholas o dia inteiro em sua cabeça confusa, mas não entende. Sorte dele que é provido de beleza e talento para conquista. Todas as assanhadas e até as recatadas do bairro o desejam secretamente em suas camas, para deixá-lo fazer aquilo que ouviram Janice, a amante mais antiga de Joemir, dizer que ele faz de melhor: sexo a noite inteira. O rapaz é realmente um sucesso com sua desenvoltura. Bem dotado, sem problemas para se erguer diante da batalha, Joemir faz qualquer rapariga frígida esquentar-se e passar horas gemendo de prazer. Um talento. Porém, quando o show acaba, ele prefere voltar sozinho para descansar em sua própria casa. Prefere assim, sem prolongar os laços. Dorme, sonha, descansa. Quando acorda ele volta a pensar sobre o tal de amor, até chegar a noite e lhe despertar o desejo de ir atrás de mais uma saia para levantar. A rotina segue assim desde sempre. E não será interrompida tão cedo. Joemir não ama ninguém, mesmo querendo. Não nasceu para isso. Nasceu para satisfazer as mulheres assanhas e até as recatadas. Para suprir suas necessidades enquanto dono de um pênis sedento por prazer. Para diversão, nasceu Joemir. Pobre do moço, que tanto quer amar, mas não descobriu que tal sentimento não foi feito para todos… Muito menos para ele.