Sobre a senhora solidão
Engraçados são os surtos aconchegantes da solidão. Ela fica tão carente de si que aparece lhe oferecendo conforto. Até a solidão se cansa de ser sozinha e, de repente, vira uma ótima companhia. Adapta-se para sobreviver. Espertinha essa senhora - com todo respeito, mas a solidão é mais velha que o amor, veio antes dele e tenho certeza que o criou como um filho adotivo, já que a solidão é infértil, por isso a chamo de senhora, em respeito à sua idade mesozóica - Espertinha e estranhamente temperamental. Chega, demora para te conquistar e quando o faz, parte. Basta alguém surgir com promessas de amor que ela, decepcionada, vai embora. Depois volta para dizer ‘eu não disse? eu tentei te avisar, mas você não quis me ouvir!’. Tão típico. Queria eu poder partilhar da minha solidão tão lúcida com um alguém cheio de promessas apaixonantes, mas ela não deixa. A solidão insiste em ser plena. Pode até te dar carinho e te servir eternamente no papel da perfeita companheira, mas é preciso aceitá-la como única e exclusiva em sua vida. Enquanto continuar buscando um outro qualquer alguém, ela estará sempre arredia ao seu lado.
Mas quem sabe você não encontre alguém mais teimoso que ela? (Renan Botelho)
Cadê o lugar simples que costumava existir na virada da esquina? As ruas agora são mais escuras, as pessoas mais desconfiadas e tudo parece seguir um ritmo constante de interesse. As relações são construídas por ambições. Pessoas que se esbarram na rua, esperam atravessar, aguardam o sinal verde do farol, e assim seguem esquecendo os que estavam em seu caminho. Amizades que trocam de marchas. Amores que colidem por imprudência. E tudo é tão poluído e cinzento. Pés que tumultuam a mesma calçada. Seres andantes e solitários. Mudaram-se as placas, os endereços, os sinais e as regras. Cada um por si. E cada um seguindo rápido para chegar ao lugar desejado. Atropelam-se em si. Atropelam-se nos outros. Atropelam-se pelas máquinas. E continuam andando. Mas cadê aquele lugar? Cadê aquele lugar simples onde eu queria chegar? (Renan Botelho)
Apresentam-se cheios de pompa e glórias inexistentes. É de se espantar como conseguem acreditar em suas próprias definições de palavras sérias, tais como maturidade e capacidade. Distorcem tudo. E tudo para se adequarem a uma inexistência de talento. A sina de quem se frustra consigo mesmo. Recriam sonhos perdidos em realidades inventadas. Falam alto. Gritam por atenção. Querem ser aprovados por quem acham que são. E são desconhecidos para si mesmos. Completam décadas vividas, mas continuam se perdendo de si. Irracionalmente invejosos. Invejavelmente irracionais. Só formulam pensamentos predatórios. Acumulam mágoas e críticas mal direcionadas. Um tesão distorcido pela vida. Querem sobrepor. Querem a fama. Querem ser reconhecidos. Querem. E continuam na eterna cadeia do querer. Perdidos, não conseguem. Não admitem. Então, transformam-se em caricaturas de vilões amargurados. A saga da Rainha Má indignada com o espelho que lhe diz a verdade. Querem vingança por serem quem são. Mas diferente dos contos de fadas, onde cada um sabe seu papel, estes seres enganados assumem-se como vítimas. E como vítimas morrem, sem amigos para reconhecer o corpo envenenado. (Renan Botelho)
E sempre foi simples assim…
”I wanna love
I want a fire
To feel the burn
My desires
I wanna man by my side
Not a boy who runs and hides
Are you gonna fight for me?
Die for me?
Live and breathe for me?
Do you care for me?
‘Cause if you don’t then just leave”
“
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(Kelly Clarkson - Walk Away)
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O casal discute na esquina movimentada, em plena madrugada. Jovens bêbados com camisetas polo. Jovens bêbados com penteado de roqueiros. Jovens bêbados e gays. Jovens bêbados. Todos dividem a cena num vai e vem infinito, perdendo-se do conceito de quem são num simples atravessar da rua, a qual é disputada pelos carros. O valor da vida é disputado. Estão todos em constante movimento. Querem diversão. Parecem ouvir uma canção acelerada. Todos. Diferentes, mas seguindo o mesmo ritmo. Ela diz para ele que precisa de mais atenção. Ele diz que faria tudo para continuar com ela. Ninguém nota os dois em crise. Um careca, com tatuagem de flechas na cabeça, aparece de grupo em grupo, como testemunhas de Jeová que batem de porta em porta à procura de novos fiéis, mas ele quer saber se os jovens bêbados possuem papel para fazer seu cigarro de maconha. A moça parece não entender. Outra descolada finge ser amiga do maconheiro, mas lamenta não poder ajudá-lo. A bixinha do canto se assusta com o mal encarado. O careca segue em sua jornada. Não quer briga. Só seu escape e um papel para enrolá-lo. Ela está a dois metros de distância dele, os braços semi-erguidos, a cabeça levemente inclinada para esquerda. Os olhos seguram a correnteza. Ele fuma freneticamente. Encontra no cigarro a desculpa por existir. Aparecem skatistas ao seu redor. Um deles percebe o clima de tensão e aponta para o casal aos risos. O casal não percebe. Os jovens bêbados prosseguem. O careca desiste de procurar papel naquela rua e vai embora. Um carro entra na rua com o som alto. Quatro mulheres disputam as três vagas do banco traseiro cantando alto. Dois homens ficam na frente, observando outras que caminham na calçada. Bêbadas. São pênis à procura de bocetas, e vice-versa. O casal se reaproxima. Ele quer um abraço. Ela resiste. Não querem um final. Não sabem o que querem. Os jovens bêbados acham que sabem. Um velho mendigo passa pela rua procurando latas recicláveis no lixo, para no farol e observa o casal. Ele é o único que enxerga os dois no meio daquela pintura borrada e escura. Ela se afasta de novo. Ele sacode os braços irritados. Uma briga começa no bar ao final da rua. O casal continua brigando na esquina. No final da rua ouve-se um tiro. O casal continua se questionando na esquina. Os gritos tomam conta do ar, antes quieto e desolado. Ela só quer ouvir que ele a ama. Ele não sabe falar. Alguns jovens bêbados aparecem gritando. O careca perguntou se um cabeludo de jaqueta de couro tinha maconha. O casal não parece chegar perto de uma conclusão. O careca sorriu pra namorada do cabeludo. O casal aos poucos desiste de existir como tal. O careca morreu com um tiro no peito, no bar ao final da esquina. Ela diz para ele que precisa de um tempo. Ele afirma que não quer um tempo, apenas a quer. As quatro mulheres do banco traseiro descem para observar a polícia chegando. Os dois homens dão risada e soltam expressões babacas ao narrar a cena para as quatro mulheres que viram o tanto que eles. Nada. A polícia limpa o bar. Ninguém mais sabe quem era o careca. O cabeludo foi preso. A namorada do cabeludo ninguém viu. Os jovens bêbados voltam a ouvir a mesma falsa música ensurdecedora que os movimentam. O ar volta a ficar mudo. Ela e ele já não são mais um casal. O resto prossegue de volta ao que era. (Renan Botelho)
perco os calçados, me desfaço dos laços e me jogo ao ar para ser guiado por um sopro qualquer. sou perdido, inventado e desconstruído naquilo que tento edificar. não sei o rumo, desconheço o futuro e só acredito no que quero acreditar. te excluo do meu mundo, procuro outros e outros mundos. sumo. fujo. de repente não sei onde estou. aumento o volume da melodia, meu corpo acompanha descompassado com o ritmo. aos poucos desisto de pensar, questionar, descobrir, cobrir. faço parte de uma história sem começo e sem fim, preso eternamente no meio. ignoro os personagens, rasgos as minhas falas e reino em um monólogo monótono que só eu entendo. vou me perdendo no que já é perdido. vou me excluindo de mim mesmo. espero chegar a derrota para me lembrar o que queria ser. é então no mundo de minúsculas, diminuído pela estética, que resolvo virar o jogo. Recupero as minhas maiúsculas, tomo conta do meu verbo e o conjugo com toda força. Chega de se perder, de ser perdido. Recupero os calçados, faço laços. Me jogo no ar e assopro. (Renan Botelho)
Ando meio perdido. Descompensado. Sinto a gastura das coisas ao meu redor, o enjôo que a rotina causa. Estou preso em um ciclo criado por mim: pessoas que cansam, pessoas cansadas. As mesmas frases, os mesmos olhares, gestos e rituais. A repetição do comum que vai se acumulando, incentivando aos poucos a vontade de gritar. O grito é o romper. Mas cadê a voz que não chega à garganta para tomar conta do vácuo ao redor? Tudo está vazio, preenchido com pessoas que não me preenchem. O que me preenche? Ando meio desanimado, pensando no resto e em você. Quem é você? Tudo se transformou. O pouco do tempo mostrou sua importância, mudando o muito que havia aqui. Os olhos piscam involuntariamente. Não é charme. É tremedeira, é estresse. As costas acumulam mais peso além do mundo que ela já carregava. As mãos sentem vontade de bater em algo. Os joelhos estão fracos, implorando para irem de encontro ao chão. Não há vitalidade que sobreviva. O barulho se esconde nas vozes dos outros. O silêncio nada significa senão a insignificância do que existe. Nada existe. Ando meio frouxo, enfraquecido. Não era assim. Ando me corrompendo, perdendo a fé. Não era assim. Ando desacompanhado. Ando sem a minha própria companhia. Não sou assim. E, de repente, já nem mesmo quero andar. (Renan Botelho)
Eu já entendi que daqui pra frente não nos resta muito tempo. As rugas em seu rosto, os sinais de suas histórias, a voz rouca, os fios prata do seu cabelo, as mãos calejadas e o olhar triste de quem se prepara para partir já me avisaram que o cronômetro está voltando. Mesmo eu, já acostumado a me despedir de pessoas próximas, sinto medo de te ver tão longe, inalcançável. Como farei pra te abraçar? Como farei pra sentir seu cheiro? Por mérito, você conquistou o direito de viver por mais de 100 anos. E se a vida fosse tão generosa conosco, ela lhe permitiria viver eternamente ao nosso lado. Talvez seja egoísmo, sei do seu cansaço. Uma hora você poderá dormir em paz, seguir em direção ao sol, conhecer outros mundos e descarregar os pesos das suas costas. Uma hora… Por favor, não agora. Então, não faz assim. Não brinca de ir embora. (Renan Botelho)
Eu quero um amor eterno que sobreviva ao seu fim recriando-se nos destroços, da sucata, do resto dos sentimentos. Um amor suave em águas turbulentas. Um amor que conte uma história. Um beijo igual ao primeiro dado entre a mocinha e o herói no filme romântico. Um carinho que acalenta. Uma comunicação interna pelos sorrisos. O ‘para sempre’ saindo dos ‘faz de conta’. O ‘faz de conta’ tornando-se realidade. Um amor que lute por si. Um amor que distribua, que divida, que some e multiplique-se, mas não se subtraia. Sem pegadinhas, sem truques, sem transformações. Honesto. Puro. Simples. Complexo. Intenso. Com reticências… Sem interrogações, sem pontos finais. Um amor que grite, que exclame, que sobreviva. Um conto de fadas, uma ilusão. Aquilo que não existe para quem não crê. Aquilo que demora surgir para quem nele acredita. Um amor que traduza felicidade, sem falsas interpretações. Um. E único: amor.(Renan Botelho)
Beijos emprestados, suspiros sem importância, um orgasmo mal gasto. Beijos trocados por amantes que não amam, emoções que não se completam e um desejo sem vontade. Lábios que se encostam, desencostam. Línguas que se conversam, orientam, depois se despedem. A troca de saliva. A técnica. Partes de pessoas despedaçadas, cacos de vidro colhidos do chão. É você. Sou eu. Nunca nós. Apenas um encontro de corpos, um intercâmbio de expectativas. Ali, nada bate mais forte do que a pulsação do pau. O coração permanece intacto: mudo, surdo e cego. As vibrações se limitam aos desejos primários. Aquilo que vem depois, não virá. Beijos determinados para uma noite, carícias que acontecem em uma cama barata e suja. Desconhecidos que fingem se amar. Depois da troca, nem mesmo um tchau será dito. O nada. Somente o nada. Silêncio eterno dos carentes. (Renan Botelho)